Rastreio do Cancro da Mama no SNS: Dos 45 aos 74 Anos, Como Funciona e o Que Fazer Se a Carta Não Chegar

O rastreio gratuito do cancro da mama abrange hoje as mulheres dos 45 aos 74 anos. Veja quem envia o convite, o que acontece no dia da mamografia e como agir se a carta não chegar.

Rastreio do Cancro da Mama no SNS: Dos 45 aos 74 Anos, Como Funciona e o Que Fazer Se a Carta Não Chegar

Durante anos, o convite para a mamografia de rastreio só chegava às mulheres que já tinham completado 50 anos e deixava de chegar depois dos 69. A 6 de dezembro de 2024, a Direção-Geral da Saúde publicou uma norma que alargou o intervalo dos 45 aos 74 anos, e é este o critério que o SNS 24 apresenta hoje como o que está em vigor. Outubro, o mês em que os laços cor-de-rosa ocupam montras, redes sociais e campanhas, é uma boa altura para traduzir essa mudança em decisões práticas: quem é convidada, por quem, o que acontece no dia do exame e o que fazer quando a carta simplesmente não aparece na caixa do correio.

O que mudou nos critérios e o que continua igual

O programa nacional destina-se a mulheres entre os 45 e os 74 anos, sem sinais nem sintomas de doença mamária, que estejam inscritas numa unidade de cuidados de saúde primários, isto é, num centro de saúde ou numa USF. A periodicidade mantém-se: uma mamografia de dois em dois anos. O exame principal é hoje a tomossíntese mamária, a chamada mamografia 3D, feita às duas mamas, com pelo menos duas imagens de cada uma em posições diferentes. O SNS 24 define o público-alvo como pessoas do sexo biológico feminino e prevê que quem tenha alterado o género no cartão de cidadão peça o agendamento diretamente à sua equipa de saúde ou a uma das unidades de rastreio.

A radiação em cada exame é tão baixa que, segundo o SNS 24, o risco é praticamente inexistente, mesmo quando a mamografia se repete de dois em dois anos. O exame faz-se em unidades fixas ou móveis que circulam por todos os concelhos, e o mais habitual é a unidade móvel estacionar perto do centro de saúde da sua zona. Se tem entre 45 e 49 anos e nunca recebeu convite, não dê o assunto por encerrado: até ao alargamento ninguém abaixo dos 50 era chamada, e o convite pode ainda não ter chegado à sua zona ou ter-se perdido num registo desatualizado.

O que o rastreio faz e o que não faz

O rastreio não previne o cancro da mama; ajuda a encontrá-lo quando ainda é demasiado pequeno para ser sentido ao toque.

Segundo o SNS 24, em 2022 foram detetados cerca de nove mil novos casos de cancro da mama em Portugal e mais de duas mil mulheres morreram com a doença, o que faz dele o cancro mais frequente e a primeira causa de morte por cancro entre as mulheres. A mesma entidade, citando a Sociedade Portuguesa de Oncologia, refere que o rastreio organizado do cancro da mama tem demonstrado uma redução da mortalidade de aproximadamente 30%. Trata-se de uma média de população: descreve o que acontece a milhares de mulheres ao longo de anos, não garante o que vai acontecer a uma em concreto. E há um limite que convém conhecer, porque o próprio SNS 24 o admite: alguns cancros são muito difíceis de ver numa mamografia e outros não se conseguem detetar de todo. Para reduzir as falhas, cada exame é lido por dois médicos radiologistas, sem que um conheça a opinião do outro, a chamada dupla leitura cega. Ainda assim, o SNS 24 considera a tomossíntese mamária a forma mais fiável de detetar o cancro precocemente.

Um resultado positivo costuma assustar, e convém saber o que significa na prática. Cerca de uma em cada 14 mulheres rastreadas tem um resultado positivo, e isso quer dizer apenas que há uma imagem que precisa de ser esclarecida com exames complementares, como uma ecografia mamária ou uma biópsia dirigida. O SNS 24 sublinha que estas alterações não são, necessariamente, indicativas de cancro.

Quem envia o convite e o que fazer se ele não chegar

O convite é feito por carta ou por telefone pelas entidades que executam o rastreio em nome do SNS: a Liga Portuguesa Contra o Cancro nas regiões Norte, Centro, Lisboa e Alentejo, e a Associação Oncológica do Algarve no Algarve. A carta indica o dia, a hora e o local do exame. Os contactos que essas entidades usam vêm do centro de saúde, e é aqui que muitos convites se perdem: quem mudou de casa ou de número de telefone sem atualizar o registo arrisca-se a ver a carta seguir para a morada antiga. O SNS 24 recomenda que verifique na sua unidade de saúde se o nome, a morada, o telefone e o email estão corretos. Melhor opção: fazê-lo esta semana, ao balcão ou por telefone, sem esperar pelo convite para descobrir o erro.

Nalgumas zonas, cumprir os critérios chega para marcar, mesmo sem carta. Na campanha de 2026 da unidade móvel em Santarém, por exemplo, a Unidade Local de Saúde da Lezíria indicou que as mulheres entre os 45 e os 74 anos que não tenham feito mamografia nos últimos dois anos não precisam de carta-convite para agendar. As regras de marcação e os contactos variam consoante a região, por isso convém confirmar na unidade da sua área antes de se deslocar.

  • Confirmar no centro de saúde que está inscrita e que os contactos estão atualizados.
  • A USF ou a ULS da sua zona sabem quando passa a unidade móvel, e várias divulgam as datas dos rastreios nas redes sociais e nos respetivos sites.
  • Telefone ou email da Liga Portuguesa Contra o Cancro, ou da Associação Oncológica do Algarve, entre outras vias que a sua região disponibilize.

A informação do SNS 24 só nomeia as entidades do continente. Quem vive nos Açores ou na Madeira deve perguntar no centro de saúde como funciona o programa na sua região.

No dia da mamografia: o que levar e o que esperar

Leve o cartão de cidadão (ou o bilhete de identidade e o cartão de utente do SNS) e, se possível, a carta-convite. Antes do exame, a equipa faz algumas perguntas sobre a sua identificação e o historial clínico relevante, explica-lhe o procedimento e pede-lhe que assine o consentimento informado. A mamografia é feita por técnicos de radiologia: cada mama é comprimida entre duas placas, para espalhar o tecido e evitar sobreposições que criem dúvidas na leitura. Essa compressão causa desconforto a algumas mulheres e, a certas pessoas, alguma dor, mas a sensação é passageira e desaparece no fim de um exame de curta duração. Diga ao técnico se estiver a custar, porque o SNS 24 pede expressamente que não hesite em manifestar o incómodo. Um desconforto de poucos minutos não é razão para falhar um exame que só se repete de dois em dois anos.

O resultado chega por carta à sua morada, e também ao médico de família, num prazo que não deve exceder quatro semanas. Se for negativo, será contactada novamente daí a dois anos. Se for positivo, é chamada para uma consulta de avaliação, onde pode repetir a mamografia ou fazer ecografia e biópsia, e só se as suspeitas se mantiverem é encaminhada para um hospital do SNS da rede de referenciação de patologia mamária. Existe ainda o resultado inconclusivo, pouco frequente, que obriga a uma consulta de aferição porque as imagens não chegam para um diagnóstico preciso ou os dois radiologistas discordam. Não vale a pena adiar por receio do resultado: adiar o exame não muda o que lá está, só atrasa o momento de o saber. O teste de rastreio e todos os exames feitos no âmbito do programa não têm qualquer custo para a utente.

Quando o rastreio não é o caminho certo

O programa foi pensado para mulheres sem sintomas, e há situações em que a regra é outra. Segundo o SNS 24, ficam excluídas de forma definitiva as mulheres que tiveram cancro da mama, que fizeram mastectomia ou que têm um síndrome hereditário e familiar ligado ao cancro da mama, entre as quais as portadoras de variantes patogénicas nos genes BRCA1 e BRCA2. A exclusão temporária abrange outras circunstâncias:

  • sintomas ou alterações na mama no dia agendado para o exame;
  • próteses mamárias, caso em que o médico de família deve orientar a avaliação consoante a situação clínica;
  • gravidez e amamentação;
  • uma mamografia negativa (BI-RADS 1 ou 2) realizada no ano anterior, ou uma mamografia positiva anterior sem adesão ao plano de diagnóstico ou tratamento.

Convém reparar no último ponto da lista: quem fez há pouco tempo uma mamografia fora do programa deve dizê-lo quando for contactada, porque isso pode alterar o momento do convite. E nenhuma destas regras é um motivo para ficar sem vigilância. Se está excluída do rastreio por antecedentes, por próteses ou por risco familiar, a conversa certa é com o médico de família, que avalia o que lhe é adequado.

Entre dois rastreios, um nódulo, um corrimento pelo mamilo, uma retração do mamilo ou a pele da mama com aspeto de casca de laranja justificam consulta com o médico de família de imediato. O SNS 24 é claro: não aguarde pelo novo convite. Evite encaixar um sintoma numa mamografia de rastreio, porque quem tem sintomas precisa de um exame de diagnóstico pedido por um médico, e não de um programa desenhado para mulheres que se sentem bem. Abaixo dos 45 ou acima dos 74 anos, o programa organizado não convida, e a decisão de fazer exames passa também pela consulta, onde se avaliam o historial pessoal e o familiar.

O que pode fazer entre uma mamografia e a seguinte

O Código Europeu contra o Cancro, cuja 5.ª edição foi apresentada em outubro de 2025, reúne 14 recomendações para reduzir o risco de cancro, e várias interessam diretamente à saúde da mama. Mantenha-se fisicamente ativa no dia a dia, sem passar demasiado tempo sentada, e tome medidas para evitar ou gerir o excesso de peso, porque ambos contam para o risco de cancro. Para quem é mãe, o Código pede que amamente o bebé durante o máximo de tempo possível. Se decidir usar terapia hormonal de substituição para os sintomas da menopausa, depois de uma discussão aprofundada com o profissional de saúde, limite-a ao período mais curto possível. Quem esperava encontrar aqui um limite «seguro» de álcool fica sem ele: a recomendação do Código é evitar as bebidas alcoólicas, sem número de copos por semana. Nenhum destes hábitos garante que a doença não aparece e nenhum substitui a mamografia, mas somam-se a ela, e a participação em programas organizados de rastreio é, aliás, uma das 14 recomendações.

Para o rastreio da mama, a tarefa desta semana é pequena e concreta: ligar ou passar pelo centro de saúde e confirmar a morada e o telefone com que está registada. É o passo mais curto da lista, e dele depende que a carta chegue ao sítio certo.