Monóxido de carbono em casa no inverno: o gás que não se vê nem cheira

Braseiros, esquentadores e aquecedores a gás podem libertar monóxido de carbono sem aviso. Veja os sinais de alerta, o que fazer na hora e como renovar o ar em casa.

Monóxido de carbono em casa no inverno: o gás que não se vê nem cheira

Numa noite de frio, a casa fecha-se por dentro: janelas trancadas, cortinas corridas e o aquecedor a gás ligado na sala desde o jantar. Parece o cenário mais seguro do mundo. É exatamente aqui que o monóxido de carbono costuma aparecer, um gás sem cor, sem cheiro e sem sabor que não avisa antes de começar a fazer mal. Quem o respira não sente que está a intoxicar-se, e é por isso que os profissionais de saúde insistem tanto neste tema todos os invernos.

Porque é que o risco sobe com o frio

Com a descida das temperaturas, muitas famílias voltam a acender lareiras, braseiros, esquentadores e aquecedores portáteis que estiveram parados durante meses. Todos estes aparelhos produzem monóxido de carbono quando queimam combustível, e o perigo aparece quando o ar não entra nem sai em quantidade suficiente. Um esquentador que funciona bem numa casa de banho arejada pode tornar-se perigoso numa divisão pequena, sem janela e com a porta sempre fechada.

O Centro de Informação Antivenenos (CIAV) do INEM regista estes casos todos os anos. Foram 18 casos de intoxicação em 2024 e 28 até 24 de novembro de 2025, dos quais 22 em adultos e seis em crianças, segundo os dados que o INEM divulgou em novembro desse ano. O total de 2025 ainda estava incompleto quando foi publicado, por isso o número final deverá ser superior.

Onde o gás se acumula dentro de casa

Segundo o CIAV, a maioria dos casos está ligada a braseiros, esquentadores e fogões usados para aquecer, em espaços com ventilação insuficiente. Os cenários abaixo repetem-se com frequência e vale a pena percorrê-los antes de ligar o aquecimento.

  • Braseiros acesos dentro de casa para aquecer uma divisão, sobretudo com a porta e a janela fechadas.
  • Os fogões de cozinha são, muitas vezes, ligados durante muito tempo como fonte de calor, uma utilização para a qual nunca foram concebidos.
  • Esquentadores numa casa de banho pequena e sem entrada de ar, onde o banho quente se prolonga.
  • Aquecedores a gás portáteis deixados a funcionar durante a noite num quarto.

Nenhuma destas situações parece perigosa à primeira vista, e é justamente isso que as torna difíceis de corrigir. O hábito parece normal até ao dia em que deixa de o ser.

Como renovar o ar sem perder o calor

Renovar o ar não obriga a manter uma janela escancarada durante horas. Basta abrir janelas em lados opostos da casa por poucos minutos, de preferência antes de ligar o aquecimento e outra vez quando a divisão já estiver quente. Ao mesmo tempo, convém não tapar as grelhas de ventilação com cortinas, tapetes ou móveis, porque são elas que deixam entrar o ar que alimenta a combustão. Em casas muito vedadas, o tapa-frinchas instalado em todas as janelas e portas pode eliminar a entrada de ar que o aparelho precisa. A casa fica mais quente no papel, mas o aparelho passa a trabalhar com menos oxigénio. Vale a pena confirmar com o técnico se a casa tem entradas de ar suficientes antes de selar tudo. Sem essa entrada de ar, o aquecimento a gás deixa de ser seguro.

O erro que quase toda a gente comete: fechar tudo

O reflexo de fechar tudo quando há frio é compreensível, e é também o erro mais comum.

Fechar a casa para guardar o calor parece sensato, e em parte é. Uma janela aberta durante alguns minutos arrefece uma divisão, mas arrefece-a pouco e recupera o calor depressa. O problema começa quando o aparelho a gás continua a queimar oxigénio numa divisão sem renovação de ar, porque o monóxido não tem para onde ir. Há quem diga que basta uma frincha na porta, e a frincha ajuda, mas não substitui uma entrada de ar real e permanente. Ao mesmo tempo, nenhum aquecedor é perigoso por natureza: o mesmo modelo, numa sala com ventilação adequada e revisto por um técnico, é um aparelho comum. A diferença está no sítio onde é usado e na forma como respira. Por isso, a regra prática é simples: aquecer sim, mas sempre com ar a entrar e a sair.

Dois mitos que atrasam a reação

O primeiro mito diz que um gás perigoso se nota pelo cheiro. O monóxido de carbono não tem cheiro nenhum, e o odor que se sente quando há fuga de gás da rede vem de um aditivo acrescentado para denunciar fugas de gás, não para avisar da combustão. Quem espera por um cheiro pode passar a noite inteira a respirar um ar que já não é seguro, sem qualquer aviso visível.

O segundo mito diz que, se a pessoa acordou e se sente melhor, o problema passou. Os sintomas costumam atenuar-se quando a pessoa sai de casa, mas o gás continua lá dentro e o risco mantém-se para quem volta a entrar. Esta é a razão pela qual a origem deve ser investigada antes de se voltar a usar a divisão, mesmo que o mal-estar já tenha passado.

Detetores: o que comprar e onde colocar

Um detetor de monóxido de carbono não impede a intoxicação, mas avisa a tempo de agir. Para uso doméstico, a norma europeia de referência é a EN 50291-1, que se aplica a alarmes elétricos de CO em habitações. Ao comprar, procure essa referência na embalagem ou no manual e desconfie de produtos que não indicam norma nenhuma. Não confunda o detetor de CO com o detetor de fumo, porque são dispositivos diferentes e nenhum substitui o outro.

A colocação habitual é perto dos aparelhos a gás e dos quartos, sem o pôr em cima do próprio aparelho. Um detetor é um alarme e não um sistema de ventilação, por isso não dispensa a renovação do ar nem a revisão dos aparelhos.

Convém testá-lo com regularidade, usando o botão de teste indicado no manual, e trocar as pilhas quando o fabricante o pedir. Um alarme que dispara sem motivo aparente não deve ser silenciado e esquecido, porque é justamente nessa altura que a divisão precisa de ser vista por um técnico. Se o alarme soar, a primeira resposta é a mesma de qualquer sintoma: ventilar, sair e pedir ajuda, e só depois investigar.

Quem sente primeiro o efeito

As crianças pequenas, as pessoas idosas, quem tem problemas cardíacos ou respiratórios e as grávidas são os grupos que sofrem efeitos mais graves com a falta de oxigénio. Os dados do CIAV de 2025 mostram seis casos em crianças entre as 28 intoxicações registadas até novembro, o que justifica a atenção redobrada em casas com menores. Um adulto saudável pode aguentar uma exposição que, noutra pessoa, já seria grave. Em casas com bebés, o quarto é a divisão que mais merece atenção, porque é onde a família passa mais horas com a porta fechada.

Sinais de alerta e o que fazer na hora

O monóxido engana porque os sintomas parecem os de uma gripe ou de um mal-estar comum. Dores de cabeça, náuseas, tonturas e um cansaço fora do normal são os sinais que o CIAV costuma citar. Quando várias pessoas da mesma casa se sentem mal ao mesmo tempo, e melhoram ao sair para a rua, a suspeita deve recair sobre o ar da própria casa. Um desmaio ou uma confusão são sinais de urgência imediata, e não há tempo para investigar a origem.

O CIAV recomenda três passos: abrir portas e janelas se for seguro, retirar as pessoas para o ar livre e ligar para o 112 ou para o CIAV, através do 800 250 250. Se a suspeita for forte, não volte a entrar para recuperar seja o que for. A casa só deve voltar a ser usada depois de um técnico verificar os aparelhos.

Revisão antes de ligar o aquecimento

A melhor prevenção acontece antes do primeiro dia de frio. Um técnico qualificado verifica em poucos minutos o que um olho leigo não vê. A tabela resume o que confirmar em cada aparelho.

Ao chamar o técnico, vale a pena fazer perguntas concretas. Pergunte se a divisão tem entrada de ar suficiente para o aparelho, se a chaminé está desobstruída e se o esquentador tem dispositivo de segurança que corta o gás quando a chama se apaga. Peça que lhe mostre o que foi verificado e o que ficou por resolver. Se o técnico encontrar uma anomalia, não adie a reparação para o fim do inverno, porque o aparelho continua a funcionar enquanto espera. Uma resposta vaga é, por si só, motivo para procurar outro profissional.

AparelhoO que verificar antes do invernoQuem deve fazer
EsquentadorEntrada e saída de ar desobstruídas, chama estávelTécnico certificado
Aquecedor a gásVentilação do compartimento e estado do tubo de ligaçãoTécnico certificado
Lareira ou recuperadorChaminé limpa e sem obstruçõesLimpa-chaminés
BraseiroUso apenas em espaço exterior ou muito arejado, nunca como aquecimento principalUtilizador, com vigilância

Não use o braseiro como fonte de calor de uma divisão fechada. Esse é o hábito que mais convém mudar este inverno. A revisão diz se o aparelho está em bom estado, mas só a renovação diária do ar diz se a casa está a respirar bem.