Com as primeiras chuvas de outubro, os pinhais, os soutos e os montados do país enchem-se de gente curvada sobre o chão húmido, de cesto no braço e canivete na mão. É um hábito antigo, ligado à mesa de muitas famílias do interior, e na enorme maioria das vezes acaba numa refeição sem história. O perigo está nas poucas vezes em que não acaba assim, porque o cogumelo responsável pela maior parte das mortes tem sabor agradável e não dá sinal nenhum durante as primeiras horas. Segundo a ASAE, estão identificadas em Portugal pelo menos 1000 espécies de cogumelos, das quais cerca de 150 são tóxicas e 10 são mortais, e as intoxicações surgem sobretudo no outono e também na primavera. Algumas das espécies venenosas parecem-se muito com espécies comestíveis, e é essa semelhança que torna tão traiçoeira a identificação feita a olho, mesmo para quem apanha cogumelos há anos. Existem, no entanto, regras simples publicadas por entidades oficiais que reduzem muito o risco, e um número de telefone que convém ter gravado antes da próxima ida ao campo.
A amanita faloide e as suas imitações
A Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, que edita com o ICNF o «Guia do Colector de Cogumelos», escreve que a ingestão de Amanita phalloides é responsável por cerca de 95% das intoxicações mortais por consumo de cogumelos, e o Manual MSD aponta a mesma proporção de mortes. A ASAE explica que as amanitas mais perigosas contêm amatoxinas, falotoxinas e virotoxinas, que lesam o fígado e os rins ou provocam falha cardíaca, e que se assemelham a espécies comestíveis como o Agaricus campestris e a Amanita caesarea. O guia da DGADR acrescenta um pormenor prático: o pé de uma amanita tem sempre volva, uma membrana em forma de saco na base, embora por vezes seja pouco visível. Quem corta o cogumelo rente ao chão deita fora precisamente a pista que mais ajudaria a identificá-lo, e é por isso que a regra é arrancar ou torcer o pé e levar o exemplar inteiro. Mesmo assim, olhar para a base não resolve tudo, porque os exemplares jovens, em que o véu ainda envolve quase todo o cogumelo, são os mais fáceis de confundir. O próprio guia avisa disso a propósito da Amanita ponderosa, muito apreciada no interior do Alentejo e no distrito de Castelo Branco, que na fase jovem se pode trocar com amanitas mortais.
Os testes caseiros que não testam nada
Não existe nenhum teste caseiro fiável.
A colher de prata que escurece, o dente de alho ou a cebola na panela, o sal grosso, o facto de os animais comerem o cogumelo, o crescer em madeira ou o cheiro agradável: nenhum destes sinais separa um comestível de um mortal. O Manual MSD afirma que as regras folclóricas para distinguir espécies tóxicas de não tóxicas não são fiáveis e que a mesma espécie pode ter graus variáveis de toxicidade consoante o local onde é colhida. Quanto à ideia de que cozinhar tira o veneno, a agência francesa de segurança sanitária ANSES recorda que as toxinas da amanita faloide, as amanitinas ou amatoxinas, não são destruídas pela cozedura. Um cogumelo bem cozido continua, portanto, tão perigoso como um cogumelo mal cozido. O sabor também não protege ninguém, já que a amanita faloide tem sabor agradável, e esse primeiro prato inofensivo para o paladar é tudo menos inofensivo para o fígado. A ASAE resume o conselho numa frase curta: «Se não conhece, não apanhe, não consuma!»
Porque é que o alívio é a parte mais perigosa
O que torna a intoxicação por amanita tão difícil de reconhecer é o calendário dos sintomas. Segundo o INEM, os primeiros sinais, vómitos, diarreia abundante e dores abdominais, podem aparecer cerca de duas horas depois da refeição, e a situação é ainda mais perigosa quando só surgem seis horas ou mais depois. A ASAE descreve dois cenários: sintomas que começam três a quatro horas após a ingestão e sintomas que só aparecem entre 10 e 48 horas depois, quando as toxinas já estão na circulação sanguínea. No segundo caso, o arranque dos sintomas é geralmente seguido de um período de remissão, com sinais de melhoria que não correspondem a uma melhoria real, porque é nessa altura que se desenvolvem as lesões no fígado e nos rins. O Manual MSD situa a gastroenterite inicial da amanita faloide entre as 6 e as 12 horas após a ingestão e descreve que os sintomas diminuem durante alguns dias antes de surgir insuficiência renal e, por vezes, hepática. O tratamento passa por repor líquidos e eletrólitos, vigiar o açúcar no sangue e administrar carvão ativado, a falência do fígado pode exigir transplante, e os antídotos testados, como a N-acetilcisteína ou a silibinina, não têm eficácia comprovada, segundo a mesma fonte.
Há uma regra de bolso que convém conhecer com as devidas reservas. Em geral, os cogumelos que causam sintomas em menos de 2 horas são menos perigosos do que os que só o fazem depois das 5 horas, indica o MSD, mas o mesmo manual admite exceções dentro do género Amanita, pelo que uma indisposição rápida tranquiliza menos do que parece.
Os números do CIAV, o Centro de Informação Antivenenos do INEM, ajudam a pôr o problema em proporção. Nas estatísticas de 2025, 67 das 27 275 consultas registadas resultaram da ingestão de cogumelos, e só um desses casos apresentava um quadro clínico grave; em 2024 tinham sido 77 consultas, também com um único caso grave. São valores pequenos, mas descrevem chamadas telefónicas e não todas as pessoas que adoeceram depois de comer cogumelos, e um caso grave por ano continua a ser alguém gravemente doente.
O que fazer se já comeu cogumelos que não consegue identificar
Perante náuseas, vómitos, diarreia, suores ou confusão depois de uma refeição com cogumelos silvestres, a prioridade é falar com quem percebe de toxicologia, e não procurar remédios caseiros. A sequência é esta.
- Ligue ao CIAV, 800 250 250. Segundo o INEM, a linha é gratuita, funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano, e é atendida por médicos com formação em toxicologia.
- Se não conseguir falar com o CIAV, ligue 112 ou siga para o hospital mais próximo; a ASAE indica ainda a linha SNS 24, 808 24 24 24.
- Faça a chamada mesmo que ainda se sinta bem, porque a amanita faloide pode demorar horas, ou até mais de um dia, a dar sinais.
- Guarde exemplares crus, restos cozinhados e, se houver vómito, uma amostra dele. O INEM pede que se conserve pelo menos um exemplar de cada espécie consumida, para que a equipa médica possa atuar com mais eficácia.
- Diga ao médico quantas pessoas comeram da mesma refeição, porque os cogumelos costumam ser cozinhados todos juntos e basta um tóxico para contaminar o prato.
Grave o número nos contactos do telemóvel hoje e confirme-o na página do INEM, porque em materiais antigos, incluindo o próprio guia da DGADR, ainda aparece o 808 250 143. O número que o INEM publica atualmente é o 800 250 250.
Se mesmo assim vai apanhar: as regras que reduzem o risco
Quem quer mesmo continuar a apanhar cogumelos deve começar por aprender com alguém que os conhece, e não com um vídeo ou uma fotografia. Não vale a pena confiar numa imagem no telemóvel: a regra de ouro, que o portal Forever Young, do SAPO, repete numa peça de 3 de outubro de 2026, é só comer o que se identifica com certeza absoluta, espécie a espécie, e nunca por semelhança com uma fotografia.
- Procure uma associação micológica da sua região. Várias organizam saídas de campo e sessões de identificação no outono, muitas vezes gratuitas ou de custo simbólico, e há autarquias e universidades que promovem jornadas micológicas.
- Nos primeiros anos, limite-se a duas ou três espécies inconfundíveis.
- Colha apenas exemplares adultos, maduros e inteiros, com a base do pé, e transporte-os em cesto ou saco de rede, nunca em plástico.
- Fique longe das bermas de estradas movimentadas, dos campos tratados e dos terrenos poluídos, porque os cogumelos acumulam metais pesados.
- Confirme a quem pertence o terreno: a apanha pode depender de autorização do proprietário e, em áreas protegidas, existem limites de quantidade.
- Nunca colha como Macrolepiota procera exemplares com menos de 10 cm de altura. O guia da DGADR avisa que podem ser Lepiota, algumas das quais, como a Lepiota brunneoincarnata, são mortais.
Na cozinha, evite sempre os cogumelos silvestres crus, porque várias espécies comestíveis são tóxicas nesse estado, e prove uma quantidade pequena na primeira vez, mesmo de uma espécie conhecida, já que existem intolerâncias individuais. Quem gosta de uma bebida à refeição deve saber que o cogumelo-da-tinta provoca uma reação desagradável quando combinado com bebidas alcoólicas, como lembra o mesmo portal. E o que sobrar não se oferece a ninguém sem que a espécie esteja confirmada por quem sabe.
Comprar em vez de apanhar
Melhor opção para a maioria das casas: comprar. Os cogumelos cultivados, dos pleurotos aos shiitake, têm hoje boa oferta, e os silvestres vendidos por operadores licenciados chegam com a espécie identificada por quem sabe, algo que nenhum cesto de domingo garante. Nada disto obriga a deixar de comer cogumelos; a diferença está em saber quem fez a identificação antes de o prato chegar à mesa.
Se houver uma única coisa a fazer antes do próximo passeio ao pinhal, é gravar o 800 250 250 no telemóvel com o nome «CIAV». É a chamada que ninguém quer fazer, e corre sempre melhor quando não é preciso procurar o número.