Saúde auditiva no verão: como proteger os ouvidos na piscina, no mar e nos concertos

Água retida no ouvido e ruído alto nos concertos de verão têm mais em comum do que parece: cuidados simples evitam otites e perda de audição.

Saúde auditiva no verão: como proteger os ouvidos na piscina, no mar e nos concertos

Depois de uma tarde inteira na piscina, a sensação é quase sempre a mesma: um ouvido entupido, como se a água tivesse ficado lá dentro para o resto do dia. Na maioria das vezes desaparece sozinha ao fim de algumas horas. Mas há verões em que essa sensação não passa — fica, incomoda, dói, e três dias depois já é preciso ir à farmácia perguntar o que fazer.

Água nos ouvidos: porque o verão é a estação de risco

A pele do canal auditivo é fina, quente e, em condições normais, ligeiramente ácida — um ambiente que mantém bactérias e fungos afastados. Água doce, água salgada ou água com cloro alteram esse equilíbrio sempre que ficam retidas durante várias horas, e é exatamente isso que acontece a quem passa o dia entre mergulhos, sem nunca secar bem o ouvido entre um banho e outro. Quanto mais tempo a pele fica húmida, mais rápido perde a proteção natural contra micro-organismos. Crianças que frequentam colónias de férias com piscina todos os dias, nadadores que treinam ao ar livre e quem pratica mergulho recreativo estão particularmente expostos, porque a exposição repetida não dá tempo à pele para recuperar entre sessões. Junte a isto os cotonetes, que muitas pessoas usam precisamente para "secar" o ouvido e que, na prática, empurram cera e humidade mais para dentro, e o resultado é previsível: irritação, comichão e, com alguma frequência, infeção. Não é coincidência que os centros de saúde registem mais consultas por dores de ouvido em julho e agosto do que em qualquer outra altura do ano.

Otite do nadador: o que é e como reconhecê-la

Chama-se otite externa, mas quase toda a gente a conhece por otite do nadador — e não é preciso ser atleta para a apanhar.

Trata-se de uma inflamação do canal auditivo externo, geralmente causada por bactérias que se multiplicam no ambiente húmido criado depois de um dia de água. Os primeiros sinais costumam ser comichão e uma sensação de ouvido tapado, que evolui para dor ao mexer na orelha ou ao mastigar. Em casos mais avançados, aparece secreção, o ouvido fica sensível ao toque e a dor pode irradiar para a mandíbula.

  • Comichão persistente dentro do ouvido, mesmo fora de água
  • Dor que aumenta quando se puxa ligeiramente o lóbulo da orelha
  • Sensação de ouvido tapado que não passa depois de um dia
  • Nos casos mais graves, há vermelhidão visível à entrada do canal e, por vezes, algum inchaço — sinal de que a infeção já não é ligeira

Como reduzir o risco antes e depois do mergulho

Evite cotonetes depois de um dia de piscina — bastam uma toalha limpa e alguns minutos com a cabeça inclinada para o lado para a água escorrer sozinha. Melhor opção: tampões de silicone moldável, que custam poucos euros em qualquer farmácia ou hipermercado e se adaptam ao formato do ouvido, ao contrário dos tampões de espuma genéricos, que nem sempre vedam bem em orelhas mais pequenas ou de formato irregular. Se sentir o ouvido cheio de água depois de nadar, um secador de cabelo ligado na potência mais baixa, a cerca de 30 centímetros de distância, ajuda a evaporar a humidade que a toalha não alcança. Já quem tem tendência para otites recorrentes deve falar com o médico de família antes do verão — em muitos casos, umas gotas específicas aplicadas antes e depois da água bastam para quebrar o ciclo.

Mar, piscina ou lago: há diferenças

A água do mar, mais salgada e com correntes, tende a entrar no ouvido com mais força do que a água parada de uma piscina, sobretudo quando há ondas ou mergulhos de cabeça. Já as piscinas municipais, tratadas com cloro, ressecam a pele do canal auditivo de forma diferente — e é por isso que muitas pessoas sentem os ouvidos mais irritados ao fim de vários dias seguidos de treino de natação do que depois de um único dia de praia. Lagos e rios, por sua vez, trazem outro tipo de risco: menos cloro significa mais bactérias de origem natural, pelo que secar bem o ouvido depois de nadar em água doce é ainda mais importante do que na piscina do bairro.

Concertos e festivais ao ar livre: o ruído que não perdoa

A Organização Mundial da Saúde estabelece os 100 decibéis como o limite a partir do qual a exposição segura, sem proteção, se reduz a cerca de 15 minutos. Perto dos altifalantes num festival como o NOS Alive ou o Super Bock Super Rock, os níveis medidos rondam frequentemente os 105 a 110 decibéis — e um concerto dura muito mais do que 15 minutos. Ao contrário de uma queimadura solar, que dói e avisa, os danos causados pelo ruído são silenciosos: as células do ouvido interno vão-se perdendo sem qualquer sintoma imediato, e quando o zumbido ou a perda de audição se tornam percetíveis, o dano já é permanente.

Os tampões de espuma simples resolvem o problema do volume, mas achatam completamente o som — é como ouvir o concerto através de uma parede, com os agudos a desaparecerem primeiro. Os tampões com filtro acústico, como os da Alpine ou da Loop, à venda por 20 a 30 euros, reduzem os decibéis de forma mais uniforme entre frequências, o que faz toda a diferença para quem vai ao concerto para ouvir música e não apenas para dizer que lá esteve. Não precisa de deixar de ir à piscina ou ao concerto de verão — precisa apenas de alguns cuidados simples, e é você quem decide se vale a pena arriscar um zumbido permanente para poupar o incómodo de levar um par de tampões na carteira.

Regras práticas para proteger a audição em concertos

  1. Mantenha alguma distância dos altifalantes principais — mesmo três ou quatro metros já fazem diferença mensurável
  2. Use tampões desde o início do concerto, não apenas quando o som já incomoda
  3. Dê aos ouvidos pausas em zonas mais afastadas do palco durante os intervalos
  4. Depois de um festival de vários dias, é normal sentir os ouvidos "cansados"; se isso persistir mais de 48 horas, vale a pena ser avaliado por um otorrinolaringologista

Sinais de alerta que pedem atenção médica

Dor de ouvido que dura mais de dois ou três dias, febre associada, secreção com cheiro ou perda súbita de audição não devem esperar por uma consulta de rotina. O mesmo vale para zumbido que continua mais de 24 horas depois de um concerto ou festival — nesse caso, o ouvido está a pedir descanso e silêncio, não outro dia de exposição ao som alto. Nas farmácias portuguesas, muitos farmacêuticos já sabem distinguir uma otite ligeira de um caso que precisa de ida ao centro de saúde, e vale a pena pedir essa avaliação antes de recorrer a gotas por conta própria.

Cuidados diários fora da época alta

A cera do ouvido não é sujidade — é proteção natural contra poeira, água e micro-organismos, e limpá-la em excesso faz mais mal do que bem. Cotonetes, palitos ou grampos de cabelo empurram cera para dentro do canal em vez de a remover, e são a causa mais comum de tampões de cera que só um profissional consegue resolver. Para quem trabalha rodeado de ruído — obras, oficinas, alguns ambientes industriais — a lei portuguesa fixa em 87 decibéis o limite de exposição diária sem proteção auditiva obrigatória, segundo o Decreto-Lei n.º 182/2006. Se esse é o seu caso, um par de protetores auriculares vale o investimento tanto no trabalho como no fim de semana seguinte, num concerto ou numa viagem de mota.

Uma toalha a mais na mala da piscina, um par de tampões de qualidade na bolsa do festival — não são medidas complicadas, e poupam noites inteiras de dor de ouvido a meio de agosto.