É a terceira vez esta semana que espirra ao entrar em casa depois do trabalho, e o pior é que já nem está calor lá fora. Não tem febre, a garganta não dói e o teste da covid deu negativo — mas o nariz insiste em correr como se estivesse constipado. Se isto lhe soa familiar, bem-vindo à alergia de outono, um fenómeno que os imunoalergologistas portugueses veem repetir-se todos os anos entre meados de setembro e o final de outubro, e que tem muito pouco a ver com o frio e quase tudo a ver com o que muda dentro e fora de casa nesta altura.
Não é constipação: é a estação a mudar
O erro mais comum é assumir que espirros em setembro só podem significar uma coisa: apanhou uma constipação por causa da mudança de temperatura. Mas a fisiologia por trás de uma alergia e de uma infeção viral é diferente, e a diferença começa logo nos primeiros sintomas. Uma constipação normalmente vem com dor de garganta, mal-estar geral e, em muitos casos, febre baixa nos primeiros dois ou três dias; uma reação alérgica não traz febre nenhuma, o corrimento nasal é aquoso e transparente em vez de espesso, e os olhos costumam arder ou lacrimejar ao mesmo tempo que o nariz entope. Há ainda um sinal que poucas pessoas associam à alergia: coceira no céu da boca ou nos ouvidos, algo que uma constipação normal simplesmente não provoca.
O calendário também ajuda a distinguir as duas coisas, e é aqui que setembro se torna especial. Enquanto uma constipação pode aparecer em qualquer altura do ano, a alergia de outono tem um padrão quase previsível: os sintomas agravam-se ao final da tarde e à noite, sobretudo quando o aquecimento central é ligado pela primeira vez depois de meses desligado, e melhoram nos dias de vento forte ou chuva intensa, que limpam o ar de partículas. Se reparar que os espirros pioram sempre que entra no quarto ou liga o aquecedor, já não está a lidar com um vírus.
Os ácaros aproveitam o aquecimento ligado
O primeiro gatilho, e provavelmente o mais subestimado, está dentro da própria casa. Os ácaros do pó — pequenos aracnídeos invisíveis a olho nu que se alimentam de células de pele morta — vivem em colchões, almofadas, cortinados e tapetes o ano inteiro, mas multiplicam-se sobretudo com humidade e calor moderado. Durante o verão, com as janelas abertas e a ventilação natural, a concentração mantém-se relativamente estável. O problema começa quando chega setembro: as casas fecham-se mais, o aquecimento é ligado pela primeira vez e todo o pó acumulado no radiador ou no aquecedor durante meses é literalmente lançado para o ar assim que o aparelho arranca.
Lavar a roupa de cama a 60°C pelo menos uma vez por semana reduz de forma comprovada a carga de ácaros — a temperaturas abaixo disso, o alergénio sobrevive à lavagem normal. Vale também a pena investir em capas antiácaros para colchão e almofada, disponíveis no Continente, na IKEA ou em qualquer farmácia por valores entre 15€ e 35€, e substituir tapetes de pelo alto por soluções laváveis nos quartos onde se dorme. Não vale a pena gastar dinheiro em purificadores de ar genéricos sem filtro HEPA certificado — a maioria dos modelos baratos vendidos online move o ar sem realmente reter as partículas mais pequenas, que são precisamente as que causam alergia.
O bolor que aparece com a primeira chuva
Depois de um verão seco como o português, a primeira chuva a sério de setembro faz mais do que refrescar o ar — reidrata folhas caídas, terra e madeira húmida, condições perfeitas para os esporos de bolor se libertarem em massa. Ao contrário do que muita gente pensa, o bolor não é só um problema de casas de banho mal ventiladas: em outono, é sobretudo um problema exterior, presente em folhas em decomposição, relva cortada e canteiros de jardim, e é transportado pelo vento tal como o pólen.
Em casa, a fonte mais comum continua a ser a casa de banho e a cozinha, onde a humidade condensa em superfícies frias. A Direção-Geral da Saúde recomenda manter a humidade relativa interior abaixo dos 60% precisamente por esta razão — acima desse valor, tanto ácaros como bolores prosperam. Um desumidificador doméstico simples, dos que se encontram na Worten ou na Leroy Merlin por 60€ a 120€, resolve a maior parte dos casos em quartos e casas de banho sem janela.
A parietária ainda anda no ar
Quem pensa que a época polínica acaba com o verão engana-se. A parietária, uma erva que cresce em muros de pedra, ruínas e terrenos abandonados por todo o país, tem um dos períodos de polinização mais longos da flora portuguesa — em regiões do Algarve e do Alentejo, pode continuar a libertar pólen até outubro, sobretudo em dias secos e ventosos. Junte-se a isto algumas gramíneas tardias e certas espécies de artemísia, que floresce precisamente entre agosto e outubro, e percebe-se porque é que, para quem é sensível a estes pólenes específicos, setembro pode parecer uma segunda primavera.
A Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica publica contagens polínicas semanais durante todo o ano, e vale a pena consultá-las antes de planear uma caminhada ou um dia de jardinagem — os valores mais altos costumam ocorrer entre as 5h e as 10h da manhã, precisamente a hora em que muita gente sai de casa para trabalhar ou levar os filhos à escola.
O que realmente ajuda em casa
Lavar o nariz com soro fisiológico ou spray de água do mar, como o Rinomar ou o Sterimar vendidos em qualquer farmácia por menos de 8€, remove fisicamente as partículas antes de estas desencadearem a reação alérgica — funciona melhor como prevenção diária do que como tratamento de um ataque já em curso. Trocar de roupa e tomar duche ao chegar a casa, especialmente depois de estar num jardim ou junto a terrenos com vegetação seca, evita que o pólen acumulado na pele e no cabelo continue a libertar-se durante a noite, dentro do quarto.
A escolha do anti-histamínico também importa mais do que parece. Os de primeira geração, como a difenidramina, causam sonolência marcada e já não são a melhor opção para quem precisa de conduzir ou trabalhar durante o dia; opções de segunda geração como a cetirizina (Zyrtec) ou a desloratadina (Aerius), disponíveis sem receita médica em qualquer farmácia portuguesa entre 6€ e 12€ por caixa, controlam os sintomas sem o mesmo efeito sedativo. Isto não significa que resolvam tudo sozinhos — em casos de congestão nasal persistente, associar um corticosteroide nasal tópico prescrito por um médico costuma dar resultados muito superiores ao anti-histamínico isolado.
Quando a farmácia já não chega
Há uma linha que separa o desconforto sazonal do problema que merece consulta médica, e vale a pena conhecê-la. Se os sintomas persistem mais de duas semanas seguidas apesar da medicação de balcão, se aparece falta de ar, pieira ou aperto no peito — sinais que podem indicar envolvimento das vias respiratórias inferiores, não só do nariz — ou se os espirros vêm sempre acompanhados de dores de cabeça fortes na zona dos seios perinasais, a recomendação é procurar um imunoalergologista em vez de continuar a experimentar produtos de farmácia por conta própria.
Um teste cutâneo de alergia (prick test), disponível em consultas de imunoalergologia no SNS mediante referenciação, ou em privado por valores que rondam os 80€ a 150€ dependendo do painel de alergénios testado, identifica com precisão a que exatamente se está a reagir — ácaros, bolores, uma erva específica ou uma combinação das três coisas. Só com esse resultado em mãos faz sentido decidir se vale a pena avançar para imunoterapia, o tratamento que reduz a sensibilidade ao longo de vários anos em vez de apenas controlar sintomas todos os outonos.
A parte que ninguém avisa
Há quem passe anos a tratar alergia de outono como cansaço ou distração, porque a congestão nasal crónica também afeta o sono e a concentração de formas que raramente se associam à causa real. Se este setembro o cansaço parece maior do que o habitual e o nariz nunca fica completamente livre, vale a pena parar de assumir que é só "o regresso à rotina" — pode muito bem ser o corpo a reagir, todos os dias, a algo tão simples como o pó do primeiro dia de aquecimento ligado.