Chega junho, o sol da tarde aperta e o tubo de protetor solar volta a aparecer na mochila de praia, muitas vezes amassado e meio vazio desde o verão passado. Vale a pena abri-lo? A regra prática é simples: se passou mais de um ano desde que o comprou, ou se ficou meses dentro do carro a apanhar calor, deite-o fora. Os filtros degradam-se com o calor e deixam de proteger como deviam, mesmo que o cheiro pareça normal.
Há muita confusão à volta deste frasco. Uns dizem que o SPF 50 é marketing, outros recusam pôr fora de casa por medo de químicos, e quase toda a gente usa menos do que devia. Convém separar o que mudou nos últimos anos do que continua exatamente igual desde sempre.
O número no frasco não é o que parece
O SPF mede a proteção contra os raios UVB, os que provocam as queimaduras. Um SPF 30 trava cerca de 97% destes raios; o SPF 50 trava cerca de 98%. A diferença real entre os dois é pequena, e por isso muita gente conclui que pagar mais pelo 50 não compensa. O problema é outro: esse valor de laboratório pressupõe que aplica 2 miligramas por centímetro quadrado de pele, o equivalente a cerca de uma colher de chá só para a cara e o pescoço. Quase ninguém põe tanto.
Quando aplica metade da quantidade testada, a proteção cai muito mais do que de forma proporcional. Na prática, um SPF 50 mal aplicado comporta-se como um SPF 20 ou menos. É aqui que o número alto ganha sentido: dá-lhe margem para o erro humano de espalhar pouco. Por isso a minha recomendação é direta: para um dia inteiro na praia ou na esplanada, escolha SPF 50 e ponha generosamente. O frasco vai durar menos? Vai. É esse o objetivo.
UVA, o que não se sente
O SPF só fala de UVB. Os raios UVA atravessam o vidro, não queimam de imediato e estão ligados ao envelhecimento da pele e a parte do risco de cancro cutâneo. Procure no rótulo o símbolo "UVA" dentro de um círculo — é a marca europeia que indica proteção UVA proporcional ao SPF. Sem isso, está a proteger-se só de metade do problema.
Os mitos que continuam a circular
Que a pele morena não precisa de protetor: é falso, embora um tom mais escuro tenha de facto mais proteção natural. Que o protetor impede de fazer vitamina D: a evidência mostra que, na vida real, quem usa protetor mantém níveis normais, até porque ninguém o aplica com a perfeição de um laboratório. E que um produto "à prova de água" dispensa reaplicação: também não. A própria lei europeia proíbe a expressão "à prova de água" precisamente porque nenhum resiste a uma tarde de banhos e toalha.
- Reaplique de duas em duas horas e sempre depois de se molhar ou de transpirar muito. Esta é a parte que quase todos falham.
- O guarda-sol ajuda, mas a areia e a água refletem os raios e chegam-lhe por baixo. À sombra não está dispensado de protetor.
- Os dias de nuvens não o protegem: boa parte dos UV passa por um céu encoberto, e é nesses dias que muita gente se queima sem perceber porquê.
- Lábios, orelhas, nuca e o peito dos pés são as zonas esquecidas — e onde aparecem com frequência os problemas anos mais tarde.
Químico ou mineral?
Os filtros minerais, à base de óxido de zinco ou dióxido de titânio, criam uma barreira física e costumam ser a melhor opção para pele sensível, para crianças e para quem tem rosácea. Antes deixavam aquela camada branca pouco simpática; as fórmulas mais recentes reduziram bastante esse efeito, embora em peles mais escuras ele ainda se note. Os filtros químicos são mais leves e invisíveis, mas alguns podem irritar peles reativas.
Não há um vencedor universal aqui, e desconfie de quem garante que um deles é "tóxico" e o outro "natural" — é uma simplificação que vende redes sociais e pouco mais. O melhor protetor é, sem rodeios, aquele que tem boa proteção UVA, que lhe assenta na pele sem desconforto e que por isso vai mesmo usar todos os dias. Um SPF 50 caríssimo esquecido na gaveta protege zero.
E as crianças?
Abaixo dos 6 meses, a recomendação é manter o bebé à sombra e tapado com roupa, em vez de cobrir a pele de creme. A partir daí, filtro mineral, chapéu e a hora do dia a jogar a favor. Entre as 11h e as 16h no verão português, a sombra e uma t-shirt fazem mais do que qualquer frasco.
Se há um gesto que muda tudo, não é comprar o produto mais caro da farmácia. É pôr o creme dez a quinze minutos antes de sair e voltar a pôr a meio da tarde, quando já se esqueceu que o sol continua lá em cima.