São oito da noite numa quinta perto de Amarante e a mesa do jantar está posta lá fora, debaixo de uma videira que ainda não deu sombra suficiente para afastar os mosquitos. A avó já avisou duas vezes que é melhor entrar antes que escureça de todo, mas ninguém lhe dá ouvidos até ao primeiro grito — uma vespa pousou no copo de sumo e alguém, sem pensar, tentou afastá-la com a mão. Cinco minutos depois há uma criança a chorar com o braço inchado, um adulto a procurar pinças na gaveta da cozinha porque encontrou uma carraça atrás do joelho do cão, e ainda ninguém sabe ao certo se aquilo que picou o avô no tornozelo foi um mosquito normal ou o tal mosquito-tigre de que se fala nas notícias. Ninguém, nesse momento, está a pensar em regulamentos europeus de repelentes ou em taxas de infeção — só em acalmar a criança e perceber se é preciso ir já às urgências. É uma cena banal em qualquer jardim, quintal ou parque de campismo português entre junho e setembro, e a maior parte das picadas resolve-se sozinha com uma pomada e alguma paciência. O problema é que nem todas seguem esse guião, e distinguir a comichão passageira do sinal que exige atenção médica não é sempre óbvio à mesa de jantar, com a luz do telemóvel como única lanterna.
A boa notícia é que a maioria dos casos — mosquito comum, vespa isolada, abelha distraída — pede pouco mais do que gelo, anti-histamínico e paciência. A má notícia é que há exceções que merecem atenção séria, e são essas exceções, e a forma de as reconhecer sem entrar em pânico, que interessa perceber antes que o verão avance mais.
O mosquito-tigre já não é só uma notícia distante
Durante anos, o conselho sobre mosquitos em Portugal resumia-se a evitar água parada e usar repelente antes do pôr do sol. Isso continua válido, mas desde 2017 o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) confirma a presença estável do mosquito-tigre (Aedes albopictus) em mais de 80 concelhos, sobretudo no litoral entre Setúbal e o Porto, e a espécie já foi identificada também em pontos do interior. Ao contrário do mosquito comum, que costuma picar ao anoitecer, o Aedes albopictus pica sobretudo de dia, tem listas brancas e pretas bem marcadas nas patas, e voa perto do chão — junto a canteiros, vasos ou pneus velhos com água acumulada. A espécie em si não transforma automaticamente uma picada num problema grave: a maior parte continua a resultar apenas em comichão e uma borbulha vermelha. É por isso que a vigilância entomológica portuguesa mantém, nos meses mais quentes, armadilhas de monitorização em dezenas de concelhos ao longo do litoral. O que preocupa a Direção-Geral da Saúde (DGS) é a capacidade teórica deste mosquito para transmitir dengue ou chikungunya caso pique alguém já infetado — algo raro, mas confirmado em surtos localizados na Madeira em 2012 e, mais recentemente, em casos importados na região de Lisboa.
Para repelentes eficazes, a DGS recomenda produtos com DEET entre 20% e 30%, ou icaridina a 20%, aplicados na pele exposta e reaplicados a cada quatro a seis horas em dias de maior exposição. Marcas como Autan Family Care ou Mosi-guard Natural, vendidas em qualquer farmácia por valores entre 6€ e 10€, cumprem esses critérios e têm registo ao abrigo do Regulamento (UE) n.º 528/2012 relativo a produtos biocidas. Evite repelentes com DEET acima de 30% em crianças com menos de dois anos — a Ordem dos Farmacêuticos recomenda, nesses casos, redes mosquiteiras e roupa de manga comprida em vez de produto químico direto na pele. Não vale a pena confiar em pulseiras ultrassónicas ou aplicações de telemóvel que prometem afastar mosquitos: nenhuma delas tem eficácia comprovada em estudos independentes, apesar de continuarem à venda em quiosques de praia todos os verões.
Vespas e abelhas: os primeiros minutos contam
A diferença entre uma vespa e uma abelha nem sempre é óbvia a olho nu, mas importa para o que fazer a seguir. A abelha perde o ferrão ao picar — fica cravado na pele, muitas vezes ainda ligado à glândula de veneno — e deve ser removido a raspar, com uma unha ou um cartão, nunca com uma pinça, porque apertar o saco de veneno só injeta mais substância na ferida. A vespa não deixa ferrão para trás e pode picar várias vezes seguidas, o que explica por que razão um ninho perturbado costuma resultar em mais do que uma picada por pessoa. Em ambos os casos, o procedimento imediato é o mesmo: lavar a zona com água e sabão, aplicar gelo envolto num pano durante dez a quinze minutos, e evitar coçar, por mais irritante que seja a comichão nas horas seguintes.
Há quem jure por vinagre, bicarbonato de sódio ou até pasta de dentes na zona da picada — remédios de cozinha que continuam a passar de geração em geração em muitas casas portuguesas. Nenhum destes acelera a cicatrização ou reduz o inchaço de forma comprovada, mas também não fazem mal na maioria dos casos, e alguns farmacêuticos admitem que o efeito calmante de aplicar algo frio, seja gelo ou uma colher de bicarbonato dissolvido em água, tem mais a ver com a temperatura do que com a substância em si. Melhor opção, quando disponível: uma pomada de anti-histamínico ou de corticoide tópico de baixa dosagem, das que qualquer farmácia vende sem receita por dois a quatro euros, aplicada nas primeiras horas.
A vespa asiática: uma vizinha relativamente nova
Um ninho de vespa velutina no topo de um plátano parece inofensivo visto lá de baixo — até que uma poda de jardim ou uma bola perdida o perturba a menos de três metros de distância.
Desde que a vespa asiática (Vespa velutina) foi detetada pela primeira vez em Portugal, em 2011, perto de Viana do Castelo, a espécie espalhou-se por praticamente todo o Minho, o Douro e partes da Beira. Os ninhos, normalmente construídos no topo de árvores altas ou em telhados, podem ultrapassar as duas mil vespas numa única colónia no final do verão, e a defesa coletiva do ninho é muito mais agressiva do que a de uma vespa comum isolada. A recomendação, nestes casos, é clara: nunca tentar remover um ninho sozinho, nem com fumo, nem com água a alta pressão, nem com inseticida caseiro. O contacto deve ser feito com os bombeiros locais ou com a câmara municipal, que em muitos concelhos do norte já têm equipas próprias para remoção segura de ninhos de vespa velutina, um serviço geralmente gratuito para o munícipe.
Carraças: a picada que não dói mas pode custar caro
Ao contrário de mosquitos e vespas, a carraça não pica de forma dolorosa nem imediata — fixa-se na pele, geralmente numa zona quente e escondida como a virilha, a axila ou atrás do joelho, e pode alimentar-se ali durante horas ou dias sem que ninguém dê por isso. Isto torna a revisão da pele, sobretudo em crianças, um hábito importante depois de qualquer caminhada em mato alto, na Serra da Estrela, no Gerês ou em qualquer parque com vegetação densa entre a primavera e o outono. A remoção correta faz diferença real no risco de infeção: usar uma pinça de pontas finas, agarrar a carraça o mais perto possível da pele, e puxar em linha reta para cima, sem torcer nem esmagar o corpo do animal. Truques antigos como queimar a carraça com um fósforo aceso ou cobri-la com vaselina para a «sufocar» fazem exatamente o oposto do recomendado: aumentam o risco de a carraça regurgitar fluido infetado para dentro da picada antes de se soltar.
Se, nos dias ou semanas seguintes à picada, surgir uma mancha vermelha que cresce lentamente em forma de anel — o chamado eritema migrans, sinal clássico de doença de Lyme — a consulta com o médico de família não deve esperar. A Direção-Geral da Saúde reporta poucas centenas de casos confirmados de Lyme por ano em Portugal, concentrados sobretudo no norte e centro do país, um número baixo, mas que a medicina geral e familiar considera provavelmente subestimado, por nem todos os casos com sintomas ligeiros chegarem a consulta.
Quando ligar 112
A esmagadora maioria das picadas de insetos, mesmo as mais inchadas e vermelhas, não é uma emergência. O que muda tudo é o aparecimento de sinais fora da zona da picada, geralmente nos primeiros vinte a trinta minutos:
- Dificuldade a respirar ou sensação de aperto na garganta
- Inchaço rápido na cara, lábios, língua ou pálpebras
- Urticária ou vermelhidão a espalhar-se para longe da zona picada
- Tonturas, confusão ou um coração a bater visivelmente mais depressa do que o normal — nesse caso, não vale esperar para ver se passa sozinho
Isto é uma reação anafilática, e o protocolo é sempre o mesmo: ligar 112 de imediato. Se você, ou alguém da sua família, já teve uma reação alérgica grave a picadas no passado, o médico de família ou o imunoalergologista pode prescrever um autoinjetor de adrenalina, como o Jext ou o Epipen, para levar sempre na mala da praia ou na mochila de caminhada. Convém garantir que pelo menos mais uma pessoa no grupo sabe como o usar, porque nem sempre é a própria pessoa em crise que consegue aplicá-lo.
Voltando ao jantar em Amarante: a criança com o braço inchado ficou bem depois de gelo e uma pomada da farmácia mais próxima, a carraça do cão saiu inteira com a pinça certa, e o avô descobriu, já tarde, que a picada no tornozelo era mesmo de mosquito comum — sem listas, sem drama. A mesa continuou posta debaixo da videira nas noites seguintes, só que desta vez com o bidão de água da rega bem tapado e o repelente já na mesa antes de o sol se pôr.