São seis da tarde de um dia de agosto, o calor ainda pesa sobre as varandas de Lisboa e a mesma cena repete-se em milhares de quintais e pátios por todo o país: um zumbido agudo junto ao ouvido, uma picada atrás do joelho, o gesto automático de coçar. A maioria das pessoas associa isto à rotina de sempre, mosquitos de verão, nada que um repelente de mesa ou uma vela de citronela não resolvam. Só que, em 2025, esse inseto específico deixou de ser apenas um incómodo sazonal. É o Aedes albopictus, o chamado mosquito-tigre, e está presente em 28 concelhos portugueses — dez a mais do que em 2024, segundo o mais recente relatório da Rede de Vigilância de Vetores (REVIVE), elaborado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA). Se vive no distrito de Lisboa, em Oeiras, Almada ou Sesimbra, há uma boa hipótese de já ter cruzado caminho com este mosquito sem saber, porque foram precisamente estes quatro concelhos que entraram na lista de deteções em 2025. E a tendência não é recente: o Aedes albopictus chegou à região Norte em 2017, alastrou ao Algarve em 2018, ao Alentejo em 2022, à região de Lisboa em 2023 e à região Centro em 2024. Cada ano soma território e cada verão soma picadas — a diferença é que, agora, há um histórico de dados sólido o suficiente para dizer que isto não é um episódio isolado, mas uma instalação permanente.
Uma Rede de Vigilância Que Não Para de Somar Números
O relatório REVIVE 2025 não se limitou a contar concelhos. As cinco regiões de saúde do continente, mais a Direção Regional de Saúde da Madeira, participaram na recolha de amostras em 243 concelhos ao longo do ano, reunindo 44 123 mosquitos de 22 espécies diferentes e 48 503 ovos de espécies invasoras. É um volume de trabalho de campo que poucos países europeus replicam com esta regularidade, e os números servem um propósito concreto: perceber onde o risco está a crescer antes que se transforme em surto.
O mosquito-tigre, porém, não anda sozinho. Na Madeira, o Aedes aegypti — o outro grande transmissor de dengue, zika e febre-amarela — está presente desde 2005, e foi ali que Portugal viveu o seu único surto significativo até hoje: mais de 2000 casos de dengue em 2012, com transmissão local confirmada. Esse precedente histórico é a razão pela qual investigadores como Hugo Osório, do Laboratório Associado Terra, insistem que "a simples presença destes mosquitos aumenta o risco para surtos destas doenças com implicação direta na saúde pública". Carla Sousa, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da NOVA, vai no mesmo sentido: o mosquito já invadiu praticamente todo o território continental e, mesmo sem provas de que transporte agentes patogénicos fora da Madeira, a sua simples presença representa um risco crescente à medida que o clima aquece e a mobilidade de pessoas aumenta. A comparação entre os dois mosquitos ajuda a perceber a escala do problema: enquanto o Aedes aegypti nunca saiu da Madeira desde que ali chegou, o Aedes albopictus espalhou-se por praticamente todas as regiões do continente em menos de uma década. Essa diferença é o que torna a vigilância tão distinta consoante o território — na Madeira, o objetivo é impedir um novo surto onde o vírus já circulou antes; no continente, é impedir que o vírus chegue a instalar-se onde o mosquito já se instalou.
DENV-2 Já Foi Detetado — Mas Só na Madeira
Nenhuma amostra de mosquito colhida em Portugal continental testou positiva para vírus patogénicos em 2025.
A exceção veio da Madeira: em amostras de Aedes aegypti foi detetado o vírus dengue serótipo 2 (DENV-2), o que reacende a atenção sobre o arquipélago mesmo sem que se tenha registado, para já, um novo surto. É esta distinção que separa presença de transmissão — ter o mosquito num concelho não significa ter a doença a circular nele, e essa nuance escapa com frequência às manchetes mais alarmistas. Dito isto, a distância entre as duas coisas encurta à medida que cresce o número de concelhos com o vetor instalado e à medida que aumenta a mobilidade de pessoas entre zonas endémicas e o território nacional. Foi assim que a dengue chegou à Madeira em 2012, e é esse mecanismo — pessoas infetadas a chegar a uma zona onde o mosquito certo já espera — que a vigilância entomológica tenta antecipar todos os anos.
Como Reduzir o Risco de Picadas Este Verão
A Direção-Geral da Saúde resume a prevenção em três frentes, e nenhuma delas exige equipamento sofisticado: evitar os horários e locais de maior atividade do mosquito, aplicar repelente com a concentração certa e vestir roupa que cubra a pele sem sufocar ao calor de agosto. Esta orientação vale sobretudo entre maio e outubro, os meses em que o Aedes albopictus está mais ativo em Portugal continental.
- Evite estar ao ar livre perto de água parada ou vegetação densa ao amanhecer e ao entardecer, os períodos de maior atividade do Aedes albopictus.
- Para crianças, a DGS recomenda repelentes com cerca de 10% de DEET; para adultos, entre 30% e 50%.
- A concentração importa mais do que muita gente pensa: um produto com 23,8% de DEET protege cerca de cinco horas, um com 20% ronda as quatro horas e um com apenas 6,65% mal chega às duas — reaplique em conformidade, sobretudo depois de nadar ou suar.
- O IR3535, alternativa comum em repelentes "sem DEET", oferece cerca de duas horas de proteção a uma concentração de 7,5%.
- Vista roupa clara, larga e que cubra braços e pernas sempre que for passar tempo no exterior ao fim do dia.
Não vale a pena poupar no repelente errado. Se sabe que vai passar a tarde no jardim ou numa esplanada perto de canteiros, escolha sempre a concentração mais alta indicada para a sua idade — um produto fraco reaplicado tarde de mais é pior do que nenhuma proteção, porque cria uma falsa sensação de segurança. E há uma curiosidade que ajuda a explicar por que é que, na mesma esplanada, umas pessoas saem cobertas de picadas e outras quase ilesas: um estudo publicado na revista Journal of Medical Entomology sugere que o mosquito-tigre tem preferência pelo sangue tipo O.
Eliminar os Focos de Reprodução em Casa
Repelente e roupa tratam do inimigo à vista; o passo mais eficaz, na prática, acontece antes disso, dentro do próprio quintal. O mosquito-tigre põe ovos em qualquer recipiente com água parada — não precisa de mais do que a tampa de uma garrafa — e é por isso que a DGS insiste tanto na eliminação de focos como na aplicação de repelente.
- Não deixe pratos por baixo dos vasos de plantas com água acumulada.
- Mantenha reservatórios de água — cisternas, bidões, baldes de rega — bem tapados.
- Limpe caleiras e algerozes regularmente, sobretudo depois de chuva.
- Lave e mude a água dos bebedouros de animais de estimação com frequência.
- Brinquedos, pneus velhos, baldes esquecidos ao ar livre: qualquer coisa que junte água da chuva convém revistar antes do fim de semana, entre outros recipientes fáceis de esquecer.
Sinais de Alerta e Quando Procurar Ajuda
A maioria das picadas de mosquito-tigre resolve-se com comichão e uma pequena mancha vermelha que desaparece em dois ou três dias. Mas há sinais que pedem atenção redobrada, sobretudo se surgirem uma a duas semanas depois de uma picada ou de uma viagem a uma zona onde a dengue é endémica: febre alta e súbita, dores de cabeça intensas atrás dos olhos, dores musculares e articulares fortes e uma erupção cutânea que aparece uns dias depois da febre. Nestes casos, marque uma consulta médica em vez de esperar que passe sozinho, e mencione sempre viagens recentes, mesmo que pareçam irrelevantes para o quadro que está a sentir.
Se a reação for a um repelente ou inseticida — irritação cutânea persistente, por exemplo — lave a zona com água abundante e sabão e contacte o Centro de Informação Antivenenos, através da linha 808 250 143, para orientação imediata. Quem vai viajar para fora da Europa deve ainda marcar a Consulta do Viajante com antecedência, recomenda a DGS, precisamente para receber aconselhamento vacinal e preventivo ajustado ao destino.
Fica um facto simples para este verão: os 28 concelhos de hoje eram 18 há um ano, e a última década não teve um único ano de recuo. A geografia do mosquito-tigre em Portugal muda mais depressa do que os hábitos de quem lhe vive ao lado — e essa é a distância que ainda dá para fechar, um quintal de cada vez.