Lisboa passou os últimos dias com 36 graus à sombra e o Algarve já bateu os 40 numa ou noutra tarde. Quando o IPMA lança um aviso amarelo por calor, a maioria das pessoas pensa logo em protetor solar e em fugir para a praia. O que costuma escapar é a parte chata: o calor noturno tira-nos o sono, baralha a tensão arterial de quem toma medicação e desidrata-nos muito antes de termos sede. Junho deste ano não está a ser meigo, e vale a pena tratar a coisa como aquilo que é — um problema de saúde, não só de conforto.
Escrevo isto depois de uma semana a dormir com a janela aberta e a ventoinha a apontar para a parede, não para a cama (já lá vamos perceber porquê). A diferença foi real. Não é magia, é fisiologia básica, e a maior parte das recomendações que circulam por aí está meia certa e meia errada.
Porque é que o corpo sofre mais do que pensamos
O corpo humano trabalha para manter os 37 graus. Quando o ar à volta passa dos 35, a única forma eficaz de arrefecer é o suor a evaporar da pele. O problema em Portugal no interior — Évora, Beja, Santarém — é que de tarde o ar fica seco e o suor evapora bem, mas perde-se água a um ritmo que não sentimos. No litoral, com a humidade do Atlântico, o suor não evapora tão bem e o corpo aquece na mesma sem nos avisar. As duas situações são desconfortáveis por razões opostas.
A perda de água ronda os 0,5 a 1 litro por hora numa caminhada ao sol de tarde, e quem trabalha na construção ou na agricultura perde bastante mais. A sede, no entanto, só aparece quando já se perdeu cerca de 2% do peso corporal em água — ou seja, já se está desidratado quando a vontade de beber chega. Por isso é que beber por hábito, e não por sede, é a regra que melhor funciona em dias de calor a sério.
Sinais que não se devem ignorar
Há uma diferença grande entre estar incomodado e estar em risco. Estes são os sinais que justificam parar tudo:
- Dor de cabeça que não passa com água e sombra, sobretudo ao fim da tarde
- Tonturas ou confusão — a pessoa começa a responder fora do assunto
- Pele quente e seca quando seria de esperar suor: pode ser golpe de calor, e aí liga-se já para o 112
- Cãibras nas pernas e na barriga depois de transpirar muito, que apontam para falta de sódio e não só de água
Para dúvidas que não sejam emergência, a Linha SNS 24 (808 24 24 24) atende e encaminha. Vale o telefonema antes de carregar uma criança pequena ou um avô para o carro a 40 graus à procura de urgências cheias.
Hidratar bem — e não é só água
Beber dois litros de água de uma vez não hidrata; passa quase tudo nos rins e vai pela casa de banho. O corpo absorve melhor em goladas regulares ao longo do dia. Um copo ao acordar, um a cada hora de manhã, e mais atenção entre as 15h e as 19h, que são as horas críticas no verão português.
Quando se transpira muito, água sozinha pode até ser contraproducente, porque dilui o sódio do sangue. Não é preciso correr a comprar bebidas desportivas caras — uma garrafa de Gatorade no Continente anda pelos 1,50 a 2 euros e está cheia de açúcar. Uma solução caseira resolve igual: um litro de água, seis colheres de chá de açúcar, meia colher de chá de sal e sumo de meio limão. Para quem prefere comprado e barato, os pacotes de soro de reidratação oral da farmácia (Dioralyte e equivalentes) custam à volta de 5 a 7 euros a caixa e foram feitos exatamente para isto.
A fruta da época faz metade do trabalho sem darmos por isso. Melancia, melão, pêssego e pepino são quase todos água, e em junho estão baratos e bons — a melancia no mercado anda pelos 0,80 a 1,20 euros o quilo. Comer fruta fresca à tarde hidrata e dá os minerais que se perdem no suor. É menos romântico do que parece, mas funciona melhor do que o terceiro café da tarde, que só desidrata mais.
O sono é a primeira vítima do calor
Para adormecer, o corpo precisa de baixar cerca de um grau a temperatura interna. Num quarto a 28 graus às onze da noite, isso simplesmente não acontece, e ficamos a dar voltas na cama. É por isso que noites de calor deixam toda a gente irritada e cansada no dia seguinte — não é fraqueza, é biologia.
A estratégia que funciona começa de manhã: fechar janelas e estores logo cedo, antes de o sol bater de frente, e manter a casa às escuras durante o dia. Parece contraintuitivo abrir tudo só depois das dez da noite, quando o ar lá fora finalmente arrefece, mas é assim que as casas antigas do Alentejo se mantinham frescas muito antes de existir ar condicionado. Paredes grossas e estores fechados faziam o trabalho.
Truques que valem mesmo a pena
- Um duche morno (não frio) antes de deitar. A água fria dá choque e o corpo reage a aquecer; a água morna deixa a pele dissipar calor depois, e baixa a temperatura interna de forma mais duradoura.
- Ventoinha a apontar para uma parede ou para o teto, não diretamente para o corpo a noite toda — o ar a bater na pele suada seca a garganta e os olhos, e há quem acorde pior do que se deitou.
- Lençóis de algodão ou linho, nunca os de microfibra ou cetim que ficam colados à pele.
- Uma garrafa de água ao lado da cama, porque acordar com sede de madrugada é sinal de que já se está desidratado.
O ar condicionado resolve, claro, mas há que usá-lo com cabeça. Pô-lo nos 18 graus a noite toda gasta uma fortuna na fatura da EDP e resseca o ar a ponto de irritar a garganta. Os 24 a 25 graus com o desumidificador ligado são mais do que suficientes para dormir, e custam bastante menos. Quem tiver um aparelho com função de programação pode deixá-lo arrefecer o quarto antes de deitar e desligar a meio da noite.
Quem precisa de cuidado redobrado
Nem toda a gente reage ao calor da mesma maneira, e isto é onde a coisa fica séria. Os bebés e as crianças muito pequenas aquecem mais depressa e não conseguem dizer que se sentem mal. Os mais velhos sentem menos sede e muitos tomam medicação — para a tensão, diuréticos, antidepressivos — que mexe com a forma como o corpo gere a água e o calor. Não é altura para deixar de tomar nada por conta própria, mas é altura para falar com o médico de família ou com o farmácêutico sobre o que ajustar nestes dias.
Uma nota que costuma surpreender: o álcool e o calor dão-se muito mal. Uma imperial gelada ao fim da tarde parece a coisa mais natural do mundo num dia de 38 graus, mas o álcool é diurético e acelera a desidratação. Não significa nunca beber nada — significa intercalar com água e não fazer da cerveja a bebida principal de uma tarde ao sol. A ressaca de verão é metade álcool, metade desidratação.
O calor de junho não é uma fatalidade que se aguenta a resmungar. É um daqueles problemas que se resolve com meia dúzia de hábitos chatos mas eficazes: beber antes de ter sede, fechar a casa de manhã, comer fruta da época, e tratar uma noite mal dormida como aquilo que custa de verdade — concentração e paciência no dia seguinte. A garrafa de água ao lado da cama é o detalhe mais pequeno desta lista e talvez o que mais diferença faz.